52 Livros

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9 — “Memento Mori”, Muriel Spark

“Lembre-se de que vai morrer”, e de que leu este livro virando desenfreadamente as páginas, parando apenas para guardar um restinho para a manhã seguinte, ciente de que seriam 52 em dois tempos se todos eles fossem assim.

9 — “Memento Mori”, Muriel Spark

“Lembre-se de que vai morrer”, e de que leu este livro virando desenfreadamente as páginas, parando apenas para guardar um restinho para a manhã seguinte, ciente de que seriam 52 em dois tempos se todos eles fossem assim.

8 — “Flow: The Psychology of Optimal Experience”, Mihaly Csikszentmihalyi

Meus pensamentos correm sem travas. O desprezo pelo Xcode está perdido no fundo da minha cachola, irrelevante em meio a shifts para a esquerda e direita, a antecipação pelo resultado na tela do iPad impelindo o tectelectec incessante no computador. Já estou há 6h em frente ao editor de código, e não tenciono parar.

Horas mais tarde, chego em casa e caio doente. Febre altíssima e calafrios, encasacado e de meias num Rio de Janeiro que ainda não se rendeu ao outono. Tremelicando e enrodilhado feito meu gato Nicolau, ainda assim matutava descompassadamente sobre um bug que abandonara no código, vencido que fui pelos os primeiros sinais de que meu corpo capengaria.  De cama nos dias seguintes, não parava de pensar em encarar as linhazinhas que me tirariam daquela situação deliciosamente incômoda.

“Flow” traz para o universo leigo pesquisas amealhadas pelo autor sobre esse estado em que as horas transcorrem sem que se perceba e a atividade é igualmente satisfatória e desafiadora. E, de acordo com Csikszentmihalyi, seja estudando História, conversando com amigos ou deglutindo um croissant quentinho, apenas a atividade executada com concentração e interesse traz a rara sensação de plenitude que tanto se busca em frente à TV e conferindo bilhetes de loteria.

Tudo começa com o cultivo de uma personalidade autotélica. Se as motivações para se fazer qualquer coisa forem sempre externas, mesmo a excelência será fonte de angústia; é importante, portanto, ter interesse pessoal na coisa pelo que ela é. A partir daí, deve-se dedicar atentamente ao objeto de interesse, sem julgamentos sobre sua nobreza, os frutos do esforço ou as dificuldades para cercá-lo e destrinchá-lo.

Quantas vezes já não abandonamos alguma atividade por não crê-la útil ou digna de dispêndio, ou então pela implicância de alguém com nosso interesse? Com que frequência não encaramos aquele livro difícil ou aquele adversário mais bem-sucedido e desistimos, por temer as provações que oferecem?

Estar no estado de fluidez, da experiência pura, exige que nos posicionemos ante uma possível fonte de contentamento com uma atitude dedicada e destacada da opinião alheia, tomando cuidado para evitar o egocentrismo (em que se considera não o processo em si, mas que utilidade terá para a construção da auto-imagem). Tal postura é suficiente para que mesmo situações muito mais adversas que um programa de computador mal-educado tragam júbilo.

Não há como se encher de alegria engolindo a quinquagésima reprise de “The New Adventures of Old Christine” do dia; não existe garantia de joie de vivre em um prêmio da Mega-Sena; não há restaurante caro que transforme sua vida se o único propósito for botar uma foto de um prato no Instagram para ver quem comenta. Sentir-se feliz depende de intencionalidade de natureza estritamente individual, cujo resultado alimenta o propósito em si, num ciclo virtuoso de experiências para toda a vida.

O livro é interessante até o capítulo seis. Daí em diante, por conta da intenção de oferecer maneiras pelas quais atingir o flow, passa a ser um manual para uma personalidade autotélica, dando ideias do que pode trazer a experiência pura a quem pouco ou raramente a encontra, e apresentando casos de pessoas que pelos mais variados caminhos sentem-se satisfeitas e plenas. Talvez isso seja válido para quem  por hábito se entrega à televisão e há muito não se lembra de qualquer interesse próprio, mas para mim dilui a mensagem em um receituário que flerta com a auto-ajuda. É fato que o caminho apresentado é tortuoso — “se você não sabe do que pode gostar, tente essas coisas, dedique-se intensamente a elas e veja no que dá” —, mas que se diga que yoga, artes marciais, viagens, o trabalho ou sexo podem ser fontes de alegria, com pessoas dando depoimentos sobre suas vidas, esvazia um pouco a mensagem. Entendo a motivação do autor, mas não gosto do resultado.

8 — “Flow: The Psychology of Optimal Experience”, Mihaly Csikszentmihalyi

Meus pensamentos correm sem travas. O desprezo pelo Xcode está perdido no fundo da minha cachola, irrelevante em meio a shifts para a esquerda e direita, a antecipação pelo resultado na tela do iPad impelindo o tectelectec incessante no computador. Já estou há 6h em frente ao editor de código, e não tenciono parar.

Horas mais tarde, chego em casa e caio doente. Febre altíssima e calafrios, encasacado e de meias num Rio de Janeiro que ainda não se rendeu ao outono. Tremelicando e enrodilhado feito meu gato Nicolau, ainda assim matutava descompassadamente sobre um bug que abandonara no código, vencido que fui pelos os primeiros sinais de que meu corpo capengaria. De cama nos dias seguintes, não parava de pensar em encarar as linhazinhas que me tirariam daquela situação deliciosamente incômoda.


“Flow” traz para o universo leigo pesquisas amealhadas pelo autor sobre esse estado em que as horas transcorrem sem que se perceba e a atividade é igualmente satisfatória e desafiadora. E, de acordo com Csikszentmihalyi, seja estudando História, conversando com amigos ou deglutindo um croissant quentinho, apenas a atividade executada com concentração e interesse traz a rara sensação de plenitude que tanto se busca em frente à TV e conferindo bilhetes de loteria.

Tudo começa com o cultivo de uma personalidade autotélica. Se as motivações para se fazer qualquer coisa forem sempre externas, mesmo a excelência será fonte de angústia; é importante, portanto, ter interesse pessoal na coisa pelo que ela é. A partir daí, deve-se dedicar atentamente ao objeto de interesse, sem julgamentos sobre sua nobreza, os frutos do esforço ou as dificuldades para cercá-lo e destrinchá-lo.

Quantas vezes já não abandonamos alguma atividade por não crê-la útil ou digna de dispêndio, ou então pela implicância de alguém com nosso interesse? Com que frequência não encaramos aquele livro difícil ou aquele adversário mais bem-sucedido e desistimos, por temer as provações que oferecem?

Estar no estado de fluidez, da experiência pura, exige que nos posicionemos ante uma possível fonte de contentamento com uma atitude dedicada e destacada da opinião alheia, tomando cuidado para evitar o egocentrismo (em que se considera não o processo em si, mas que utilidade terá para a construção da auto-imagem). Tal postura é suficiente para que mesmo situações muito mais adversas que um programa de computador mal-educado tragam júbilo.


Não há como se encher de alegria engolindo a quinquagésima reprise de “The New Adventures of Old Christine” do dia; não existe garantia de joie de vivre em um prêmio da Mega-Sena; não há restaurante caro que transforme sua vida se o único propósito for botar uma foto de um prato no Instagram para ver quem comenta. Sentir-se feliz depende de intencionalidade de natureza estritamente individual, cujo resultado alimenta o propósito em si, num ciclo virtuoso de experiências para toda a vida.


O livro é interessante até o capítulo seis. Daí em diante, por conta da intenção de oferecer maneiras pelas quais atingir o flow, passa a ser um manual para uma personalidade autotélica, dando ideias do que pode trazer a experiência pura a quem pouco ou raramente a encontra, e apresentando casos de pessoas que pelos mais variados caminhos sentem-se satisfeitas e plenas. Talvez isso seja válido para quem por hábito se entrega à televisão e há muito não se lembra de qualquer interesse próprio, mas para mim dilui a mensagem em um receituário que flerta com a auto-ajuda. É fato que o caminho apresentado é tortuoso — “se você não sabe do que pode gostar, tente essas coisas, dedique-se intensamente a elas e veja no que dá” —, mas que se diga que yoga, artes marciais, viagens, o trabalho ou sexo podem ser fontes de alegria, com pessoas dando depoimentos sobre suas vidas, esvazia um pouco a mensagem. Entendo a motivação do autor, mas não gosto do resultado.

7 — “Os Prazeres e Desprazeres do Trabalho”, Alain de Botton

Tentar definir minha relação com o trabalho é o centro de muitas conversas conjugais, o motivo pelo qual às vezes durmo mal, a fonte de fantasias escapistas e bilhetes de loteria, o buraco-negro emocional que me faz odiar pessoas, questionar o mundo e clamar, numa espécie de prece do mimimi, por tapetes vermelhos e bandejas com café recém-passado em todo lugar que me receba.

Por isso, quando “The Pleasures and Sorrows of Work” saiu no mercado inglês, cerca de dois anos atrás, botei uma fitinha no punho para lembrar-me de lê-lo. Um livro inteiro dedicado a uma análise do papel do trabalho poderia me ajudar a estruturar um jeito de encarar as coisas que não fosse tão cheio de altos e baixos? Porra, é disso que eu preciso! É motivo até para ignorar a merda que foi “The Architecture of Happiness”, Alain!

Empolgação prematura. A única diferença entre este livro e um blog inspirador (o PPS dos usuários sofisticados de internet) é que não há anúncios atualizados a cada vez que você vira uma página. Os parcos insights são diluídos em observações vagas, e as seções dedicadas às linhas de atuação têm mais uma cara de “visitei meu pai no trabalho” do que de uma tentativa à vera de postular alguma coisa.

Continuo com meu problema, e “Status Anxiety” e ~”The Art of Travel”, livros de que gostei bastante, já são memórias distantes do meu apreço pelo autor. E, francamente, não ajuda ter descoberto que ele compõe a equipe de uma espécie de “Fala que eu te escuto” misturado com Casa do Saber, que oferece cursos extremamente relevantes, tais quais “Como ser legal” e “Como se preocupar menos com dinheiro”. E depois de me vender mais um encadernado de ladainhas, imagino que ele não tenha muito interesse em ministrar este último.

3 — “Stiff: The Curious Lives of Human Cadavers”, Mary Roach

Curiosamente, enquanto lia o capítulo sobre desastres aéreos e a ciência forense que se escora nos cadáveres, o avião entrou em uma zona de turbulência supimpérrimo. Pensei que seria um fim bem sacana para minha vida (ainda mais sem poder contar sobre a coincidência para ninguém), mas sobrevivi para falar que adorei este livro.

3 — “Stiff: The Curious Lives of Human Cadavers”, Mary Roach

Curiosamente, enquanto lia o capítulo sobre desastres aéreos e a ciência forense que se escora nos cadáveres, o avião entrou em uma zona de turbulência supimpérrimo. Pensei que seria um fim bem sacana para minha vida (ainda mais sem poder contar sobre a coincidência para ninguém), mas sobrevivi para falar que adorei este livro.

Começando de novo

Estava escrevendo um bando de bobajadas sobre o projeto não ter propósito quando li que a Laura, do 52 Books, decidiu tocar a vida, após três anos se esforçando para postar coisas interessantes sobre suas leituras. Ela me inspirou a começar isto, a ler mais, e de certa maneira as asneiras que publico na Internet me conduzem de semana a semana por um caminho que, de certa maneira, me ajuda a querer mais da vida.

2011 já começou. Espero completar os 52 este ano, mesmo que com regras menos rígidas, para honrar a pessoa que me inspirou. E espero, também, que meus raros leitores encontrem algo de agradável em meio a chistezinhos babacas e busquem elementos em suas vidas que os façam ter disciplina para entender mais sobre si mesmos, como eu (até certo ponto) fiz.

Para me livrar: 44, 45, 46

44 — “Pantaleão e as Visitadoras”, Mario Vargas Llosa

As múltiplas vozes e a sacanagem me divertiram imensamente.

45 — “The Prime of Miss Jean Brodie”, Muriel Spark

Primeira doação ao projeto, feita por Guilherme Semionato, que pretende seguir os passos deste blog em 2001. Gostei.

46 — “Shutter Island”, Dennis Lehane

Conseguido numa troca (dois David Foster Wallace por um Lehane). Não vi o filme, não sabia muito da história, e a leitura foi de surpresas e puro divertimento. Espero ler mais do autor em 2011.

43 — “Breve Sexta-Feira”, Isaac Bashevis Singer

Depois de “The Yiddish Policemen’s Union, mais um motivo para uma estrelinha ao lado do item Pesquisar mais coisas sobre lendas judaicas na minha wishlist intelecto-mané para 2011. Top 10 deste ano, fácil, fácil.

Vou ter de comprar um novo exemplar, já que o meu se desintegrou em cinco pedaçõs enquanto eu me deleitava com a mulher que violava a lei ao carnear reses para venda aos judeus de bem e uma senhora que, incapaz de abandonar o marido à própria sorte mesmo depois de bater as botas, toma o corpo de Simmele, a jovem que se tornará a segunda Esther Kreindel. Os fragmentos da minha leitura serão espalhados por todos os lugares em que me faria bem lembrar que o que eu faço neste blog não é escrever (e que, graças ao bom Elohim, há quem entenda do assunto).

43 — “Breve Sexta-Feira”, Isaac Bashevis Singer

Depois de “The Yiddish Policemen’s Union, mais um motivo para uma estrelinha ao lado do item Pesquisar mais coisas sobre lendas judaicas na minha wishlist intelecto-mané para 2011. Top 10 deste ano, fácil, fácil.

Vou ter de comprar um novo exemplar, já que o meu se desintegrou em cinco pedaçõs enquanto eu me deleitava com a mulher que violava a lei ao carnear reses para venda aos judeus de bem e uma senhora que, incapaz de abandonar o marido à própria sorte mesmo depois de bater as botas, toma o corpo de Simmele, a jovem que se tornará a segunda Esther Kreindel. Os fragmentos da minha leitura serão espalhados por todos os lugares em que me faria bem lembrar que o que eu faço neste blog não é escrever (e que, graças ao bom Elohim, há quem entenda do assunto).