8 — “Flow: The Psychology of Optimal Experience”, Mihaly Csikszentmihalyi
Meus pensamentos correm sem travas. O desprezo pelo Xcode está perdido no fundo da minha cachola, irrelevante em meio a shifts para a esquerda e direita, a antecipação pelo resultado na tela do iPad impelindo o tectelectec incessante no computador. Já estou há 6h em frente ao editor de código, e não tenciono parar.
Horas mais tarde, chego em casa e caio doente. Febre altíssima e calafrios, encasacado e de meias num Rio de Janeiro que ainda não se rendeu ao outono. Tremelicando e enrodilhado feito meu gato Nicolau, ainda assim matutava descompassadamente sobre um bug que abandonara no código, vencido que fui pelos os primeiros sinais de que meu corpo capengaria. De cama nos dias seguintes, não parava de pensar em encarar as linhazinhas que me tirariam daquela situação deliciosamente incômoda.
“Flow” traz para o universo leigo pesquisas amealhadas pelo autor sobre esse estado em que as horas transcorrem sem que se perceba e a atividade é igualmente satisfatória e desafiadora. E, de acordo com Csikszentmihalyi, seja estudando História, conversando com amigos ou deglutindo um croissant quentinho, apenas a atividade executada com concentração e interesse traz a rara sensação de plenitude que tanto se busca em frente à TV e conferindo bilhetes de loteria.
Tudo começa com o cultivo de uma personalidade autotélica. Se as motivações para se fazer qualquer coisa forem sempre externas, mesmo a excelência será fonte de angústia; é importante, portanto, ter interesse pessoal na coisa pelo que ela é. A partir daí, deve-se dedicar atentamente ao objeto de interesse, sem julgamentos sobre sua nobreza, os frutos do esforço ou as dificuldades para cercá-lo e destrinchá-lo.
Quantas vezes já não abandonamos alguma atividade por não crê-la útil ou digna de dispêndio, ou então pela implicância de alguém com nosso interesse? Com que frequência não encaramos aquele livro difícil ou aquele adversário mais bem-sucedido e desistimos, por temer as provações que oferecem?
Estar no estado de fluidez, da experiência pura, exige que nos posicionemos ante uma possível fonte de contentamento com uma atitude dedicada e destacada da opinião alheia, tomando cuidado para evitar o egocentrismo (em que se considera não o processo em si, mas que utilidade terá para a construção da auto-imagem). Tal postura é suficiente para que mesmo situações muito mais adversas que um programa de computador mal-educado tragam júbilo.
Não há como se encher de alegria engolindo a quinquagésima reprise de “The New Adventures of Old Christine” do dia; não existe garantia de joie de vivre em um prêmio da Mega-Sena; não há restaurante caro que transforme sua vida se o único propósito for botar uma foto de um prato no Instagram para ver quem comenta. Sentir-se feliz depende de intencionalidade de natureza estritamente individual, cujo resultado alimenta o propósito em si, num ciclo virtuoso de experiências para toda a vida.
O livro é interessante até o capítulo seis. Daí em diante, por conta da intenção de oferecer maneiras pelas quais atingir o flow, passa a ser um manual para uma personalidade autotélica, dando ideias do que pode trazer a experiência pura a quem pouco ou raramente a encontra, e apresentando casos de pessoas que pelos mais variados caminhos sentem-se satisfeitas e plenas. Talvez isso seja válido para quem por hábito se entrega à televisão e há muito não se lembra de qualquer interesse próprio, mas para mim dilui a mensagem em um receituário que flerta com a auto-ajuda. É fato que o caminho apresentado é tortuoso — “se você não sabe do que pode gostar, tente essas coisas, dedique-se intensamente a elas e veja no que dá” —, mas que se diga que yoga, artes marciais, viagens, o trabalho ou sexo podem ser fontes de alegria, com pessoas dando depoimentos sobre suas vidas, esvazia um pouco a mensagem. Entendo a motivação do autor, mas não gosto do resultado.